Pesquisa Operacional Soft: tratamento ante a resolução

Os Métodos de Estruturação de Problemas (no original, Problem Structuring Methods – PSMs) são um grupo de metodologias destinado ao tratamento de situações complexas. O intuito é fornecer auxílio a tomadores de decisão perante ambientes turbulentos nos quais a inexistência de padrões preestabelecidos impossibilita qualquer tentativa de solução. A orientação enfatiza a elucidação da estrutura dos problemas organizacionais, em vez da resolução direta, classificando-os, portanto, como “métodos de estruturação” e não “métodos de resolução”.

Os PSMs surgiram como alternativa às inadequações da abordagem dominante da Pesquisa Operacional. A modelagem quantitativa, baseada no emprego de algoritmos matemáticos, mostrou-se insuficiente quando confrontada com problemas reais: analistas reformulavam características originais das situações em função da adaptação às propriedades das técnicas numéricas. Em resposta às restrições rígidas, os PSMs são usualmente rotulados como Pesquisa Operacional Soft (Operational Research Soft – OR Soft), dada a flexibilidade da modelagem visando a consideração efetiva das circunstâncias, ao contrário do paradigma tradicional, dito OR Hard.

A nova visão concentra seus esforços no esclarecimento do ambiente, isto é, como prover uma melhor formulação do problema enfrentado pela organização. Problemas complexos são intratáveis devido aos elevados níveis de incerteza, falta de clareza, limitado acesso a informações, conflitos ou instabilidade: requerem que o executivo visualize claramente que qualquer solução para seu dilema não sacrifique determinadas variáveis-chave em favor de outras. Assim, faz-se necessário o mapeamento das ramificações da situação, de modo a trazer para um grupo de decisão a definição inequívoca da questão enfrentada. Posteriormente, a estruturação do problema apontará possíveis caminhos para soluções. Como resultado, a estruturação apoiada pela ação dos PSMs fornece a definição inequívoca do problema complexo.

O processo de formulação do problema é realizado de modo significativamente distinto do formato tradicional da Pesquisa Operacional. Entre as divergências, está a desierarquização do poder de decisão. Enquanto a maioria das decisões é tradicionalmente concentrada na figura de um único decisor (seja o Chairman ou CEO), o processo é construído por um conjunto de pessoas de forma interativa e participativa. Os participantes são convidados a contribuir com seu diagnóstico individual em benefício da construção da estrutura do problema.

A modelagem diverge nos procedimentos. Pessoas, antes tratadas como objeto passivo, passam a ser a fonte primacial de acesso às informações. Um exemplo está no método SODA (acrônimo para Strategic Options Development Analysis), uma das metodologias dessa abordagem. Num projeto SODA, é realizado o mapeamento cognitivo individual dentro da equipe que, na sequência, é mesclado ao mapa estratégico, composto pela soma dos mapas individuais. Ao mesmo tempo que a modelagem captura a interpretação particular do problema, também direciona as ações em torno dos pontos críticos, e não uma mera percepção individual. Desta forma, são reveladas causas e ramificações da problemática em análise.

Um dos aspectos de destaque aponta para a transparência dos modelos de decisão. Em contraste com a modelagem típica, essencialmente realizada de forma numérica, os PSMs adotam a linguagem como insumo principal. A valorização da linguagem remete, sobretudo, à própria condição humana: somos animais que se comunicam por meio da linguagem, atribuindo conteúdo semântico a cada vocábulo proferido. A riqueza é extraída justamente no exame específico do discurso de cada participante, o que garante transparência nas relações frente a números abstratos ou taxas de probabilidade sem distribuição definida.
Ronald Concer e Russell Ackoff | Pesquisa Operacional SoftEnquanto a modelagem OR Hard se estrutura em torno de um único objetivo a ser otimizado, situações complexas são marcadas pela multiplicidade de objetivos. Muitas vezes simultâneos e definidos por dimensões divergentes de mensuração, múltiplos objetivos tornam inviável a aferição dos níveis de sucesso por meio de indicadores tradicionais.

Ainda nesse tópico, observa-se que certos executivos envolvidos em processos decisórios apresentam diferentes graus de autonomia e subordinação. Tais executivos tendem a perseguir objetivos distintos, pautados em interesses particulares, levando-os a identificar fatores diversos como relevantes. O embate de narrativas é o estopim do conflito organizacional. Executivos precisam justificar suas ações e as prováveis consequências. A contribuição dos PSMs visa à verificação das diferentes versões e, ao assegurar a individualidade, busca pontos de convergência que possibilitem o consenso em vez de assumir artificialmente a unanimidade perante as variáveis envolvidas, tal como os julgamentos presentes na perspectiva anterior.

Em suma, os PSMs procuram aumentar a compreensão do contexto em que o problema está inserido. A aplicação desses métodos detalha cenários para que, posteriormente, os executivos estejam alinhados e aptos a trabalhar sobre o “mesmo problema”, de modo unificado. Como métodos de estruturação, a perspectiva atua no gerenciamento da complexidade: por sua própria natureza, é irresolvível; o esforço reside, então, em domesticar problemas perversos ou em ordenar as bagunças organizacionais. Grande parte da ação concentra-se na ampliação do problema mediante a definição aprimorada da situação em pauta.

Até a década de 1970, afirmava-se que “formular bem” um problema significava quantificá-lo por completo como preparação para o cálculo — ideia que, tragicamente, ainda persiste. Como paradigma alternativo, então, os PSMs asseguram a definição adequada do problema previamente às eventuais aplicações de ferramentas computacionais, embora, ainda, essa etapa seja frequentemente ignorada.


PARA CITAR:

CONCER, R. Pesquisa Operacional Soft: tratamento ante a resolução. Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2025. Disponível em: <https://ronaldconcer.blogspot.com/2025/10/pesquisa-operacional-soft-tratamento.htmll>

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