O médico e as borboletas: a destruição do patrimônio
A dificuldade em demonstrar o que é o certo aos profissionais de alto gabarito
Anos atrás tentei ensinar Criação de Valor a um médico bem-sucedido. O médico em questão, além de gostar de finanças, era extremamente qualificado: alto nível acadêmico, da graduação ao doutorado. Professor pesquisador e, ademais, um amigo... indícios perfeitos para que a aula fosse um sucesso.
Foi um completo desastre. Em uma noite descontraída, falei sobre a diferença entre gerar valor e gerar lucro. Abordei a liquidez. Tomei como exemplo os investimentos generalizados em imobilizado, mencionei caixa, arrisquei até o custo de capital. O ambiente era calmo. Não havia filhos, esposas ou pacientes que causassem interrupções.
Em certo momento, abandonei a argumentação técnica e recorri a algumas ilustrações, digamos, “simples”. Expliquei a clara divisão entre “lucro” e “sobra de dinheiro” no final do mês; uma tentativa didática para expor a divergência conceitual entre lucro contábil e econômico. Apontei também o quanto seria suficiente “sobrar” para criar valor. “O teu capital precisa ser constantemente remunerado!” O discurso era constantemente interrompido por colocações que mais se assemelhavam a perguntas exclamatórias. “Mas, é mais ou menos despesas?” “É mais ou menos juros?”. “Você está falando de inflação?” Eu rebatia com “não, estou falando de estruturação financeira e de controlar cada centavo que existe na tua conta corrente.” Lá pelas tantas, a conversa atingia uma atmosfera quase litigiosa, como se o assunto se convertesse numa disputa de quem sabe o quê. Recebi um “mas as minhas contas estão todas pagas!”. Por fim, me atrevi a lançar “não meu amigo, me refiro ao quanto o teu patrimônio aumenta!”. Desisti.
De forma muito particular, aquela experiência catastrófica colocou em xeque minhas habilidades pedagógicas. Se lecionar ao portador de um diploma de administração de empresas que o ROIC deve ser maior que o WACC já não é uma tarefa simples, para o amigo médico, foi impossível. Nessa aventura, parti da hipótese de que, se alguém diz gostar de finanças, dialoga sobre dividendos e até descreve operações de subscrição e “data com”, naturalmente supus que interesse na matéria engrandeceria o amigo. Novo erro: as operações haviam sido aprendidas com algum trader a quem, aparentemente, conferiu maior credibilidade comparado ao autor desse texto.
Interessante é relembrar que o “amigo médico” disse, na mesma conversa, que havia concluído um curso na área de finanças. Referia-se a um curso in company, e contava com algum entusiasmo sobre o aprendizado de indicadores, como índices de liquidez e até o EBITDA. Não pude me conter: “meu caro amigo, isso é da década de 1930, sabia? Resultam em análises incompletas e tendem a destruir o valor econômico!” Silêncio.
Considerei, de fato, a necessidade de aprimoramento da minha capacidade didática. Entretanto, o que ficou muito claro é que o médico não estava disposto a aprender sobre os modelos de decisão. A experiência catastrófica levou-me a alguma reflexão, sobre a resistência daquele amigo:
➤ Nota-se, em primeiro lugar, o desinteresse no tópico. Há o argumento de que “tal assunto não é ‘da minha área profissional’, logo, não é necessário o aprofundamento”. Por vezes, ignorar o tópico acontece devido ao medo de expor deficiências no saber (embora, nessa situação, não exista qualquer obrigação de domínio do assunto). Lamentavelmente, observa-se a defesa pelo “o que sei é o suficiente”, mesmo que errado ou incompleto. A postura superficial do médico e seu patrimônio refém da mediocridade acerca dos tópicos financeiros remete ao frágil voo da borboleta, sem escalas ou alturas, que voa de flor em flor, em um voo belo perfeito restrito às condições favoráveis do jardim. Em cenários perfeitos, voa tranquila, mas sempre ameaçada pelo mais sutil toque externo... qualquer choque nas delicadas asas, nunca mais voará.
Em certo momento, abandonei a argumentação técnica e recorri a algumas ilustrações, digamos, “simples”. Expliquei a clara divisão entre “lucro” e “sobra de dinheiro” no final do mês; uma tentativa didática para expor a divergência conceitual entre lucro contábil e econômico. Apontei também o quanto seria suficiente “sobrar” para criar valor. “O teu capital precisa ser constantemente remunerado!” O discurso era constantemente interrompido por colocações que mais se assemelhavam a perguntas exclamatórias. “Mas, é mais ou menos despesas?” “É mais ou menos juros?”. “Você está falando de inflação?” Eu rebatia com “não, estou falando de estruturação financeira e de controlar cada centavo que existe na tua conta corrente.” Lá pelas tantas, a conversa atingia uma atmosfera quase litigiosa, como se o assunto se convertesse numa disputa de quem sabe o quê. Recebi um “mas as minhas contas estão todas pagas!”. Por fim, me atrevi a lançar “não meu amigo, me refiro ao quanto o teu patrimônio aumenta!”. Desisti.
De forma muito particular, aquela experiência catastrófica colocou em xeque minhas habilidades pedagógicas. Se lecionar ao portador de um diploma de administração de empresas que o ROIC deve ser maior que o WACC já não é uma tarefa simples, para o amigo médico, foi impossível. Nessa aventura, parti da hipótese de que, se alguém diz gostar de finanças, dialoga sobre dividendos e até descreve operações de subscrição e “data com”, naturalmente supus que interesse na matéria engrandeceria o amigo. Novo erro: as operações haviam sido aprendidas com algum trader a quem, aparentemente, conferiu maior credibilidade comparado ao autor desse texto.
Interessante é relembrar que o “amigo médico” disse, na mesma conversa, que havia concluído um curso na área de finanças. Referia-se a um curso in company, e contava com algum entusiasmo sobre o aprendizado de indicadores, como índices de liquidez e até o EBITDA. Não pude me conter: “meu caro amigo, isso é da década de 1930, sabia? Resultam em análises incompletas e tendem a destruir o valor econômico!” Silêncio.
Considerei, de fato, a necessidade de aprimoramento da minha capacidade didática. Entretanto, o que ficou muito claro é que o médico não estava disposto a aprender sobre os modelos de decisão. A experiência catastrófica levou-me a alguma reflexão, sobre a resistência daquele amigo:
➤ Nota-se, em primeiro lugar, o desinteresse no tópico. Há o argumento de que “tal assunto não é ‘da minha área profissional’, logo, não é necessário o aprofundamento”. Por vezes, ignorar o tópico acontece devido ao medo de expor deficiências no saber (embora, nessa situação, não exista qualquer obrigação de domínio do assunto). Lamentavelmente, observa-se a defesa pelo “o que sei é o suficiente”, mesmo que errado ou incompleto. A postura superficial do médico e seu patrimônio refém da mediocridade acerca dos tópicos financeiros remete ao frágil voo da borboleta, sem escalas ou alturas, que voa de flor em flor, em um voo belo perfeito restrito às condições favoráveis do jardim. Em cenários perfeitos, voa tranquila, mas sempre ameaçada pelo mais sutil toque externo... qualquer choque nas delicadas asas, nunca mais voará.
➤ O tempo de aprendizado é mínimo: essa é a disponibilidade de dedicação ou capacidade de concentração do público geral. Não se deve ignorar a crescente demanda por cursos rápidos para profissionais recém-formados, eficientemente ofertados pelos “certificados” comercializados nas prestigiosas business schools. Embora muito pouco acresçam aos alunos, à exceção do “certificado”, são exigidos pelos recrutadores ou por uma entidade sobrenatural nomeada “mercado”.
➤ Esse perfil busca resultados imediatos. Qualquer experiência de aprendizado deve ser rápida e, sobretudo, indolor. Isso sugere a possível falta de popularidade e interesse em tópicos legítimos ou avançados. Truques ou macetes são aceitos com mais facilidade do que tratar de estruturação financeira.
➤ A mais trágica consequência é a destruição de valor do patrimônio. Profissionais com salários altíssimos perdem valor ao ignorar completamente a administração financeira e os modelos de decisão. “Ah, vamos ver isso depois” ou “por enquanto está tudo certo!”, entre outros fatores comportamentais que são os precursores da falência silenciosa.
➤ Esse perfil busca resultados imediatos. Qualquer experiência de aprendizado deve ser rápida e, sobretudo, indolor. Isso sugere a possível falta de popularidade e interesse em tópicos legítimos ou avançados. Truques ou macetes são aceitos com mais facilidade do que tratar de estruturação financeira.
➤ A mais trágica consequência é a destruição de valor do patrimônio. Profissionais com salários altíssimos perdem valor ao ignorar completamente a administração financeira e os modelos de decisão. “Ah, vamos ver isso depois” ou “por enquanto está tudo certo!”, entre outros fatores comportamentais que são os precursores da falência silenciosa.
Anos depois, constato que o “amigo médico”, ainda que possua alguns imóveis, desesperadamente trabalha para ter caixa, honrar financiamentos e não dispõe de reservas. A incapacidade de gestão não é exclusiva de uma categoria profissional: diversos administradores de empresas operam na mesma sintonia. Não sabem medir, avaliar opções e são reféns de agentes externos. O ponto mais lamentável é que a generalizada destruição de valor tende a afetar o bem-estar social e a economia como um todo.
Este é um relato sobre uma tentativa frustrada de ajudar o “amigo médico”. Considerando que se tratava de alguém com capacidade intelectual elevada e, por se tratar de uma relação de amizade, o ensino era gratuito, portanto, imagine como seria difícil lidar com esse assunto com o empresário brasileiro!
Este é um relato sobre uma tentativa frustrada de ajudar o “amigo médico”. Considerando que se tratava de alguém com capacidade intelectual elevada e, por se tratar de uma relação de amizade, o ensino era gratuito, portanto, imagine como seria difícil lidar com esse assunto com o empresário brasileiro!
PARA CITAR:
CONCER, R. O médico e as borboletas: a destruição do patrimônio. Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2025. Disponível em: https://ronaldconcer.blogspot.com/2025/10/o-medico-e-as-borboletas-destruicao-do.htm
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