Acesso negado: as portas fechadas para a pesquisa
A resistência em colaborar com projetos de pesquisa põe em xeque a idoneidade dos próprios gestores.
Não se trata de episódio pontual, específico de algum setor ou formato da empresa. Tampouco é uma eventualidade deste ano. Os obstáculos para a coleta de dados sempre existiram, mas o acesso tem-se agravado na época atual.
O problema reside na obtenção de dados primários, isto é, aquelas observações nunca coletadas e que são registradas diretamente pelos instrumentos do pesquisador. A coleta acontece mediante questionários de pesquisa ou entrevistas. O pesquisador, ao portar hipóteses previamente criadas, vai ao campo para testar fenômenos ou averiguar a aplicabilidade de modelos previamente elaborados. De acordo com o método de pesquisa utilizado, muitas vezes o pesquisador usa o próprio campo para elaborar constructos ou hipóteses. Tal atividade é fundamental para expandir e aperfeiçoar instrumentos e processos empresariais. Como resultado, espera-se que um experimento de pesquisa traga melhorias para a ciência e as demais instâncias da gestão.
No Brasil, as barreiras são inúmeras. As portas para pesquisa em gestão estão fechadas. Frequentemente, pesquisadores dispendem mais tempo na busca por acesso às empresas do que na elaboração da própria pesquisa. Em especial, contatar líderes empresariais é uma tarefa praticamente impossível. Mesmo com paciência para enviar convites via e-mail ou passar horas ao telefone -- que é constantemente transferido entre departamentos -- fatalmente, o contato é direcionado para funcionários com posição hierárquica inferior. O pesquisador fica refém da benevolência de assessores ou funcionários, em geral, sem nenhum embasamento técnico. Por sua vez, há aquele que, em vez de transmitir o convite ao CEO, tem a pretensão de julgar o trabalho do pesquisador. Dizeres como “vou avaliar e converso com ele” acontecem, pronunciados por assessores sem qualquer condição técnica ou cultural para ponderar as pautas de pesquisa.
Além disso, nota-se o desinteresse dos próprios executivos. Alguns alegam que a disponibilidade é restrita por problemas nas agendas. Após abarrotar o pesquisador com elogios parabenizando o trabalho, parte do discurso automático e hipócrita, mas, no fim, afugenta o entrevistador pois não dispõe de tempo para preencher um questionário. É visível que estes não estão ocupados o suficiente para se promoverem em redes sociais, seja postando fotos, respondendo comentários ou até contando os “likes”. Outrossim, certos executivos realmente estão com a agenda restrita; no entanto, estão envolvidos com “outras atividades”, dentro da organização, mas de natureza discordante ao cargo.
Dados primários são insubstituíveis para a evolução da pesquisa em administração de empresas. Classificada como ciências sociais aplicadas¸ a pesquisa em gestão somente assumirá o caráter “aplicado” caso haja a colaboração da principal parte interessada, em tese, a empresa. Enquanto diretores não acolherem pesquisadores, não haverá forma de comprovar a aderência dos modelos: anos de desenvolvimento permanecerão como quadros teóricos abandonados em bibliotecas e gavetas de pesquisadores brilhantes.
Cabe ao líder empresarial encarar a pesquisa como uma oportunidade excepcional de avaliar a efetividade da sua própria gestão. De outro modo, aos que preferem permanecer no formato tradicional de gestão, baseado em acordos informais que vão desde amizades até práticas eticamente discutíveis, não esqueçam: ao contrário dos papers, o seu cargo, algum dia, terá um fim.
PARA CITAR:
CONCER, R. Acesso negado: as portas fechadas para a pesquisa. Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2025. Disponível em: https://ronaldconcer.blogspot.com/2025/10/acesso-negado-as-portas-fechadas-para.html
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