As time goes by: quando a glória chega de bengala

ronald coase e ronald concer

Em 24 de fevereiro de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu ao militar Eric Slover com a Medalha de Honra durante o discurso do Estado da União, realizado em Washington, D. C. Slover, piloto de helicóptero, desempenhou função decisiva no desembarque das tropas durante a operação de captura de Nicolás Maduro, ocorrida em 3 de janeiro deste ano. A Medalha de Honra é a mais alta condecoração atribuída a um militar, ápice na carreira por seus atos de bravura. Eric Slover foi condecorado 52 dias após a operação, fato que enaltece e, de forma imediata, reconhece sua distinção no exercício de sua profissão.

Alguém dirá que a entrega da honraria naquela cerimônia seja parte dos atos políticos em prol do personalismo de Trump. Aqui, aplaude-se o reconhecimento imediato pelo governo dos Estados Unidos frente à excepcional habilidade de um profissional no cumprimento do seu dever: quiçá a mesma velocidade possa, ainda, atingir as lideranças no que condiz com as contribuições científicas.

No campo científico, especialmente nas ciências sociais aplicadas, a realidade é outra. É provável que a condecoração de maior prestígio corresponda ao Prêmio Nobel da Economia, cujo intervalo entre a publicação das descobertas e o reconhecimento da aplicabilidade, talvez, acarrete uma vida inteira.

O prêmio Nobel é uma honraria concedida anualmente: pesquisadores que, de alguma forma, revelem grande impacto para a atividade econômica, são os prováveis laureados pela Fundação Nobel. Além do prestígio e honrarias, o vencedor recebe cerca de 1,2 milhão de dólares como prêmio -- valor indiscutivelmente baixo quando comparado ao impacto das contribuições econômicas geradas. Embora desproporcional, a quantia, com absoluta certeza, propicia grande melhoria na vida de qualquer acadêmico, independentemente de sua nacionalidade.

Ou propiciaria.

Devemos lembrar algumas das mais incríveis mentes da economia do século XX. Comecemos com um distinto cavalheiro batizado com um nome imponente: Ronald Coase (quase como o autor deste blog!). Em 1937, Coase publicou seu artigo seminal “The Nature of the Firm”, aos 26 anos de idade. Ele foi agraciado com o Nobel da Economia em 1991. Naquele artigo, Coase introduziu o conceito basilar para o desenvolvimento da Teoria dos Custos de Transação. É evidente que o arcabouço em torno da ideia fundamental foi desenvolvido por ele próprio ao longo das décadas seguintes; no entanto, observa-se o hiato de 54 anos entre o marco teórico e a premiação. De forma similar, ainda tratando dos custos de transação, Oliver Williamson publicou o notório “The Economic Institutions of Capitalism” em 1985 e recebeu a medalha Nobel em 2008, doze anos antes de sua morte. Lembremos também do ilustre John Nash, que concluiu seu PhD em 1950: tese em que estabeleceu a estrutura formal do que conhecemos como equilíbrio de Nash. Sua medalha Nobel chegou ao seu bolso em 1994: esse, ao menos, dispôs de 25 anos para desfrutar os proveitos da premiação antes de sua partida deste mundo.

Antes que alguém se manifeste sobre as incoerências na causalidade entre ciência e benefícios econômicos particulares, antecipo-me ao oferecer caminhos. A opção tradicional do pesquisador é recorrer a uma entidade sobrenatural denominada “mercado”. Alternativa clichê: testemunhos desse percurso, no Brasil, já foram registrados neste blog (ver Acesso negado e A diferença entre teoria e prática). O resultado é que, na maioria (se não em todas), o pesquisador não recebe apreço algum – mormente, no que tange ao aumento de patrimônio pessoal.

Regressemos à academia, almejando a deferência per se. É notório que artigos e modelos brilhantes estão fatalmente confinados às bibliotecas. O modelo inicial de Leslie Day Zeleny¹, publicado em 1947, nunca havia sido submetido a exames minuciosos ou testados quanto à precisão, até o ano de 2018. Resta ao nobre acadêmico a esperança de receber alguma citação advinda de algum journal de alto impacto. Espera-se, também, que não seja necessário publicar novamente, junto a uma gangue com outros 3 ou 4 autores, na tentativa de tornar-se conhecido por variáveis sociais em substituição à competência técnica.

A laureação de Slover é o exemplo mais recente de consagração imediata e Donald Trump, goste-se ou não, suscita um mínimo de esperança para aqueles que mereçam alguma compreensão urgente daquilo que, por anos, elaboram com devotada dedicação. A sociedade em geral é resistente a aceitar novas descobertas: tanto a academia como o tal “mercado” relutam em acolher o inovador, mesmo quando indicam ganhos de eficiência.

Ainda é a velha história”: talvez alguém lucre com a manutenção dessa lentidão.

A sapiência “nunca será obsoleta... o mundo sempre dará boas-vindas à inovação.... as time goes by”.

REFERÊNCIA

1. Veja a referência em relação ao resgate do modelo Leslie Day Zeleny realizada por este autor. O processo de reestruturação e aprimoramento dos algoritmos originais deu origem ao “Método Zeleny de Gestão Executiva”. Acesso:Uma Única Pergunta: Redescoberta | Revista Método Zeleny 

PARA CITAR:

CONCER, R. As time goes by: quando a glória chega de bengala . Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2025. Disponível em: https://ronaldconcer.blogspot.com/2026/02/as-time-goes-by-quando-gloria-chega-de.html

IMAGENS:
Trata-se de uma alusão direta ao professor Ronald Coase em sua juventude. A primeira imagem foi gerada a partir de sistemas de inteligência artificial a partir de comandos textuais e destinam-se exclusivamente a fins artísticos, ilustrativos ou conceituais. A imagem final traz o nosso personagem, Dr. Elegante, tomando o papel de Sam em "Casablanca".

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