A diferença entre teoria e prática: apenas a reinvenção da roda
Distingue-se a desenvoltura intelectual do profissional pelo seu nível de linguagem. O uso exacerbado de jargões, grande parte formada por estrangeirismos ou expressões nitidamente mal traduzidas, e até a divagação de posturas conceituais convencionais expressam a incapacidade analítica e a carência de repertório conceitual sobre assuntos que tais “profissionais” proclamam dominar. Talvez um dos ápices de tal atitude se manifeste naquele que insiste em abordar qualquer assunto dividindo-o entre teoria e prática.
A esse tipo de divisão, que é sustentada com toda convicção, pouco importam os argumentos que a contestem. Estes propõem uma distinção nítida entre a esfera “prática”, em que as manifestações ocorrem de forma concreta, enquanto a camada “teórica” é delimitada pelo domínio conceitual e sem aplicabilidade, cujo funcionamento é reduzido “ao que está no papel”. As oportunidades de negócios encontram-se na primeira modalidade, por tratar-se do mundo real: aquele dos protocolos, rotinas, fluxos, da mão na massa, reuniões intermináveis, em suma, daquilo que foi estabelecido como a “prática”. Ações recorrentes, testadas, e que, supostamente, são eficazes. Essa é a fatídica descrição do ambiente de trabalho, residência do profissional que soma anos de experiência executando tarefas repetitivas e, onde "mora o dinheiro”.
Já na segunda classe, expressão literalmente apropriada àqueles que defendem tal fragmentação, a teoria pertence exclusivamente aos livros e habita as empoeiradas estantes das bibliotecas afastadas dos centros empresariais. Essas são consultadas por cientistas excêntricos que passam a vida “só estudando”, dentro dos eremitérios acadêmicos, alheios aos eventos mundanos. Ao aglomerar montanhas de textos, acumulam cumprimentos de “parabéns pela publicação”, na sequência, são etiquetados com selo de “ah, mas isso é acadêmico, não vejo espaço na nossa empresa”. Será que existe, peremptoriamente, tal divisão? E se existe, qual o sentido para tanto estudar?
O ponto fundamental dessa discussão é expor como nasce uma teoria. No âmbito das ciências sociais aplicadas, em especial na Administração, uma teoria é formada principalmente a partir de evidências empíricas. O pesquisador investiga suas suposições e as documenta a partir de experimentos realizados em organizações: o seu legítimo laboratório de análise. Um estudo acadêmico detalha a relação entre A e B. Outro explica A até D. Ademais, há estudos que abrangem a manifestação de B a F. O resultado do conjunto de formulações testadas é o que forma uma teoria. Logo, uma teoria oferece uma gama de registros acerca dos eventos que ocorrem entre A e F. Não é seu dever prover o mapeamento completo das possibilidades, tampouco antecipar com exatidão todos os casos passíveis de ocorrência em um determinado setor ou tipo de organização. Uma teoria não possui essa pretensão. A função é apresentar um panorama, o mais detalhado possível, das ações que tendem a funcionar daquelas que não funcionam e os motivos para isso.
Contrariamente ao que assevera a narrativa tradicional, não há fronteira entre teoria e prática, principalmente no campo da Administração. O desenvolvimento teórico emerge justamente de hipóteses testadas. Isso permite ao administrador abreviar caminhos: quanto mais teorias conhecer, maior será o número de respostas para os problemas de gestão.
A alternativa daquele que desconhece ou menospreza o desenvolvimento teórico é passar vinte anos da sua carreira martelando pregos em uma superfície qualquer. Ao insistir na fragmentação entre teoria e prática, é bastante provável que ele se torne um especialista em martelar pregos. No entanto, quantas madeiras ele estragou antes de se dar conta das limitações de resistência e extração dos pregos? E se ele soubesse que, em determinadas estruturas, é melhor instalar um parafuso pois a robustez e a durabilidade são superiores? Não são necessários vinte anos de tentativa e erro: basta consultar aquele que já fez; isso, sem dúvida, está previsto na teoria. Talvez o profissional não se importe em desperdiçar milhares de superfícies; quem sabe, o orçamento para contabilizar falhas seja infinito. Essa longa e orgulhosa experiência poderia ter sido reduzida a uma única ocasião. Avalia-se, também, o nível de competitividade do profissional que está, no mínimo, vinte anos atrasado comparado àquele que conhece a tal teoria; haja vista o famigerado atraso da adoção das técnicas pelo mercado e a data das publicações científicas.
O melhor exemplo é a própria Pesquisa Operacional, que advém do dito “mundo real”: partiu da aplicação de conhecimentos científicos em apoio às necessidades bélicas imediatas durante a Segunda Guerra Mundial. A Sociometria teve seu exórdio na observação da interação entre crianças em um reformatório na década de 1930. Jacob Levy Moreno usou pontos em linhas para representar as preferências individuais e as dinâmicas do grupo: embrião fundamental da Ciência das Redes.
A parcela dos profissionais que permanece refém dessa dicotomia é a mesma que busca por soluções prontas e genéricas aos problemas complexos. Essa espécie conta com seus palpites, fruto da exaustiva execução de tarefas pontuais, para arriscar tentativas de solução para situações, no máximo, cotidianas. Trata-se do mesmo grupo que necessita de décadas para cumprir um projeto da maneira correta. O insucesso daqueles que teimam em proclamar a divisão entre “isso é acadêmico” do “isso não é acadêmico” talvez, depois de muitos anos e alguma sorte, consigam reinventar a roda.
A esse tipo de divisão, que é sustentada com toda convicção, pouco importam os argumentos que a contestem. Estes propõem uma distinção nítida entre a esfera “prática”, em que as manifestações ocorrem de forma concreta, enquanto a camada “teórica” é delimitada pelo domínio conceitual e sem aplicabilidade, cujo funcionamento é reduzido “ao que está no papel”. As oportunidades de negócios encontram-se na primeira modalidade, por tratar-se do mundo real: aquele dos protocolos, rotinas, fluxos, da mão na massa, reuniões intermináveis, em suma, daquilo que foi estabelecido como a “prática”. Ações recorrentes, testadas, e que, supostamente, são eficazes. Essa é a fatídica descrição do ambiente de trabalho, residência do profissional que soma anos de experiência executando tarefas repetitivas e, onde "mora o dinheiro”.
Já na segunda classe, expressão literalmente apropriada àqueles que defendem tal fragmentação, a teoria pertence exclusivamente aos livros e habita as empoeiradas estantes das bibliotecas afastadas dos centros empresariais. Essas são consultadas por cientistas excêntricos que passam a vida “só estudando”, dentro dos eremitérios acadêmicos, alheios aos eventos mundanos. Ao aglomerar montanhas de textos, acumulam cumprimentos de “parabéns pela publicação”, na sequência, são etiquetados com selo de “ah, mas isso é acadêmico, não vejo espaço na nossa empresa”. Será que existe, peremptoriamente, tal divisão? E se existe, qual o sentido para tanto estudar?
O ponto fundamental dessa discussão é expor como nasce uma teoria. No âmbito das ciências sociais aplicadas, em especial na Administração, uma teoria é formada principalmente a partir de evidências empíricas. O pesquisador investiga suas suposições e as documenta a partir de experimentos realizados em organizações: o seu legítimo laboratório de análise. Um estudo acadêmico detalha a relação entre A e B. Outro explica A até D. Ademais, há estudos que abrangem a manifestação de B a F. O resultado do conjunto de formulações testadas é o que forma uma teoria. Logo, uma teoria oferece uma gama de registros acerca dos eventos que ocorrem entre A e F. Não é seu dever prover o mapeamento completo das possibilidades, tampouco antecipar com exatidão todos os casos passíveis de ocorrência em um determinado setor ou tipo de organização. Uma teoria não possui essa pretensão. A função é apresentar um panorama, o mais detalhado possível, das ações que tendem a funcionar daquelas que não funcionam e os motivos para isso.
Contrariamente ao que assevera a narrativa tradicional, não há fronteira entre teoria e prática, principalmente no campo da Administração. O desenvolvimento teórico emerge justamente de hipóteses testadas. Isso permite ao administrador abreviar caminhos: quanto mais teorias conhecer, maior será o número de respostas para os problemas de gestão.
A alternativa daquele que desconhece ou menospreza o desenvolvimento teórico é passar vinte anos da sua carreira martelando pregos em uma superfície qualquer. Ao insistir na fragmentação entre teoria e prática, é bastante provável que ele se torne um especialista em martelar pregos. No entanto, quantas madeiras ele estragou antes de se dar conta das limitações de resistência e extração dos pregos? E se ele soubesse que, em determinadas estruturas, é melhor instalar um parafuso pois a robustez e a durabilidade são superiores? Não são necessários vinte anos de tentativa e erro: basta consultar aquele que já fez; isso, sem dúvida, está previsto na teoria. Talvez o profissional não se importe em desperdiçar milhares de superfícies; quem sabe, o orçamento para contabilizar falhas seja infinito. Essa longa e orgulhosa experiência poderia ter sido reduzida a uma única ocasião. Avalia-se, também, o nível de competitividade do profissional que está, no mínimo, vinte anos atrasado comparado àquele que conhece a tal teoria; haja vista o famigerado atraso da adoção das técnicas pelo mercado e a data das publicações científicas.
O melhor exemplo é a própria Pesquisa Operacional, que advém do dito “mundo real”: partiu da aplicação de conhecimentos científicos em apoio às necessidades bélicas imediatas durante a Segunda Guerra Mundial. A Sociometria teve seu exórdio na observação da interação entre crianças em um reformatório na década de 1930. Jacob Levy Moreno usou pontos em linhas para representar as preferências individuais e as dinâmicas do grupo: embrião fundamental da Ciência das Redes.
A parcela dos profissionais que permanece refém dessa dicotomia é a mesma que busca por soluções prontas e genéricas aos problemas complexos. Essa espécie conta com seus palpites, fruto da exaustiva execução de tarefas pontuais, para arriscar tentativas de solução para situações, no máximo, cotidianas. Trata-se do mesmo grupo que necessita de décadas para cumprir um projeto da maneira correta. O insucesso daqueles que teimam em proclamar a divisão entre “isso é acadêmico” do “isso não é acadêmico” talvez, depois de muitos anos e alguma sorte, consigam reinventar a roda.
PARA CITAR:
CONCER, R. A Diferença entre Teoria e Prática: apenas a reinvenção da roda. Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2021. Disponível em: https://ronaldconcer.blogspot.com/2021/12/a-diferenca-entre-teoria-e-pratica.html
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