Meus heróis sempre foram os gangsters - parte II: a versão brasileira
O texto anterior propôs um tributo à personalidade do gangster, imortalizada pelas realizações cinematográficas que, ao longo do século XX, revestiram a Máfia de uma certa aura heroica. O gangster ítalo-americano não obteve a mesma adaptação romantizada no Brasil, aquela que consistia em transformar um fora da lei numa figura virtuosa. Apesar da pluralidade da literatura e cultura popular do país, a ausência dessa personagem não parece, à primeira vista, facilmente justificada. Em oposição ao retrato emoldurado em “Meus Heróis Sempre Foram os Gangsters”, esta continuação não prestará louvor, sob hipótese alguma, ao gângster em sua versão abrasileirada.
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| Meus heróis sempre foram os gangsters - parte II: a versão brasileira |
A visão que foi popularizada pela sétima arte traz a Máfia como organização formada inicialmente por pessoas que se envolveram no crime pela necessidade de sobrevivência: regida por um código de conduta que promovia a cooperação e o respeito entre seus membros. O exemplo mais notável está em Vito Andolini (O Poderoso Chefão), um órfão que precisou fugir para os Estados Unidos pois um oligarca local na Sicília assassinou toda sua família. Vítima de opressões inclusive enquanto adulto e sem perspectivas para sustentar seu lar, decide resolver os problemas com as próprias mãos e se converte em autoridade informal, celebrado pelos próprios vizinhos. Um retrato similar também aparece nos meninos pobres de “Era Uma Vez na América”[i], que encontram no companheirismo um meio de sobrevivência contra um Estado falho e dominado por outras gangues.
A idealização mais comovente do gângster brasileiro assumiu a identidade dos meninos ladrões que percorriam as ruas de Salvador e dormiam sob a luz amarela da lua. Diferentemente de Mario Puzo, Jorge Amado detalhou as necessidades legítimas do “fora da lei” ao escolher o crime: ladrões pela fome, pelo abandono do carinho e pelo total desamparo. Toda aquela amargura era suportável pela sede inextinguível dos Capitães da Areia pela liberdade. É inevitável se encantar com a narrativa que nos convida a fazer parte daquela gangue, fraterna entre si, ao correr pelas ruas, sem leis ou fronteiras guiados pelo intrépido Pedro Bala, amante incondicional da liberdade: “o bem maior do mundo”. Entretanto, duvido que alguém, ao desejar ser um gângster, aceitaria andar de trapos e dormir na companhia dos ratos naquele velho trapiche.
O desenvolvimento da Máfia Siciliana divergiu em muito do formato apresentado pelo cinema. A matriz original recebeu diversas influências ao longo dos séculos e deixou o legado de grupos exclusivos, compostos por elos familiares ou associações baseadas na hierarquia social rígida, como forma de proteger a população contra injustiças do governo. A Sicília esteve submissa a disputas ao longo da História. Desde as Guerras Púnicas (214 a. C.) seu território foi marcado por um sistema de latifúndio implementado pelos romanos, que implantaram um modelo que desaguaria em uma formação feudal, a qual perdurou até a época da Unificação Italiana do século XIX. Assim originou-se a estrutura social amparada em uma hierarquia muito definida. Tratava-se de grupos oligarcas, de número reduzido, criados a partir das heranças culturais dos povos árabes, normandos e espanhóis para estabelecer um organismo de justiça interna, sem interferência das autoridades institucionais existentes. Destaca-se que as práticas de banditismo se faziam presentes, um importante instrumento de suporte àquelas oligarquias – o que favorecia o resto dos membros ao consolidarem-se como líderes econômicos e políticos –, o verdadeiro trabalho sujo. A Máfia Siciliana era composta por um arranjo de oligarquias impenetrável a qualquer cidadão externo. A consolidação do poder, em especial, ocorria por meio de intimidação e violência, principalmente durante o século XVIII. As táticas subversivas para obter capital e poder variavam desde a exploração da população mais frágil (camponeses ou artistas) até a distorção do sistema judiciário em prol dos interesses dos grupos. Qualquer cargo público na Sicília estava à venda. A ignorância era até incentivada[ii].
O poder daqueles grupos foi além da ilha e alcançou o restante da Itália. No começo do século XX, tal expansão despertou a ira do Duce. Na década de 1920, Benito Mussolini declarou guerra à Máfia, resultando na aniquilação de inúmeros criminosos locais. O movimento emigratório do sul da Itália, iniciado pelas precárias condições de vida da população desde o princípio do século, recebeu também um seleto grupo de vigaristas e pessoas agora indesejadas naquele país. A Máfia foi exportada para a América, em especial para as grandes cidades dos EUA, onde se instalou como gangues - o que converge com as representações cinematográficas às quais todos já assistimos - e, posteriormente, organizou-se como a Cosa Nostra. É digno de nota que parte dos componentes desse êxodo teve outros destinos, desembarcando também em certos centros urbanos localizados no Brasil.
No contexto brasileiro, o paralelo histórico ao banditismo encontra a versão mais próxima no movimento do cangaço. Entre o fim do século XIX e início do XX, os cangaceiros vagavam pelo sertão cometendo diversos crimes, desde pilhagens até assassinatos. O fenômeno do cangaço nasceu como forma de defesa daquele grupo de sertanejos em condições indignas de vida e como resposta à ineficácia das autoridades na manutenção das leis. Sob múltiplos aspectos, os cangaceiros se aproximam muito mais do ideal cinematográfico dos gângsters, na medida em que se tornaram reverenciados localmente. A exemplo da repressão imposta por Mussolini contra os clãs mafiosos na Sicília, o Estado Novo de Vargas encarregou-se com a mesma eficiência de decapitar os cangaceiros antes que evoluíssem para consolidar-se como poder oligárquico. Esta é uma das prováveis razões para explicar por que não tivemos uma interpretação de Lampião com um Tom Hagen depondo numa CPI.
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Lampião não se tornou o Don Virgulino. Quem sabe tenham existidos outros dons nos moldes originais da Máfia Siciliana. Esses foram generosamente narrados pelos meus heróis: basta abrir nossa preciosa literatura e encontraremos o clã Amaral de Erico Veríssimo, os coronéis de Jorge Amado e o Paulo Honório de Graciliano Ramos - expoentes dos oligarcas e suas posses obtidas pela violência. Como toda literatura toma inspiração em eventos reais, é possível que o coronelismo mostrou astúcia superior aos dons. Eles derrubaram décadas de estabilidade política e econômica da Monarquia ao criar uma “república” por meio do golpe. Ademais, forjaram a História para as gerações seguintes acreditassem que tal “Proclamação” ocorreu sob apoio popular. Afinal, é bastante conveniente obrigar crianças ingênuas a decorar fatos e datas, fase que mal sabem ler ou escrever. Golpe tão bem concebido que, ainda hoje, grande parte da população permanece refém das farsas. É inevitável lembrar quando Don Vito se confessa perante Michael: “eu não queria isso para você, eu o via como senador Corleone, governador Corleone...”[iii]. Para consolar o pai, que sonhava com o fim daquela vida construída sobre a violência e desejava ver a família legalizada, diz “nós vamos chegar lá”. A melhor faceta romantizada do crime organizado jamais conseguiu atingir o píncaro dos padrões brasileiros, que não só derrubou a Monarquia, mas foi mais bem-sucedida que qualquer outra ao manter-se infiltrada no poder por mais de um século.
A atitude criminosa não se reduz às oligarquias. Tampouco é privilégio da classe política ou exclusividade de herança genética. É provável que esteja espalhada pelo ar. O brasileiro comum convive sob a atmosfera do estelionato, na qual só considera por “esperto” aquele que obtém vantagens pessoais quando submetido a qualquer situação. Mesmo que isso implique em atos ilegais. Inúmeras são as ilustrações: dos laços sociais pela pura conveniência até as ações intencionais para obter benefícios particulares. O menino faminto que faz amizade pelos jantares na casa do amigo, já que sua mamãe não sabe cozinhar; a parasita que se associa com a madame para ser a companhia de viagem; ou a anfitriã que hospeda gratuitamente por pura vaidade – quando na verdade, quem pediu a hospedagem fez por pura economia. E como todo golpista é uma vítima em potencial, a dona da casa ganha um vaso sanitário entupido, impossível de consertar, e nenhuma satisfação. Haja água.
Na linguagem da Ciência das Redes, seria como o vértice se conecta para aumentar o valor vetorial. Eis o comportamento formalizado pela famigerada “Lei de Gérson”, derivada de uma campanha publicitária de mau gosto, que maculou a imagem do futebolista Gérson de Oliveira Nunes. Além do choque semântico, a caracterização assume um tom herético, já que, por definição, a dita malandragem remete-nos ao ideal não ilícito das comunidades religiosas: a falange dos malandros louva a sagacidade sem jamais prejudicar o semelhante.
Podemos questionar os motivos pelos quais não tivemos um Michael Corleone no nosso cinema ou um Tony Soprano nas novelas. Não nos faltaram bons atores ou escritores. Lamentavelmente nunca assistimos a um “O Painho” contendo uma cena de Don Virgulino dançando um forrozinho no casamento de sua filha – Luiz Gonzaga seria o nosso Johnny Fontane. E por quê? O gângster brasileiro não necessita de romantização. Ele está aí. Você o conhece. Basta abrir a porta. Quem sabe esteja do outro lado da cama... ou até no espelho? Se por acaso não o encontrar, assista aos jornais. Nem Mario Puzo ou Martin Scorsese conseguiriam tantas cenas. Embora as personagens sejam, na maioria, as mesmas e o enredo, repetitivo, as narrativas são relatadas (ou modificadas) por alguns veículos de mídia de maneira tão artificial que ofendem a inteligência viva dos grandes cineastas. O ápice dessa encenação macabra é que o brasileiro assiste e transforma tais figuras em heróis, com fervor idêntico dedicado ao seu clube de futebol.
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| Quando o arrasta-pé substituiria a valsa na cena do casamento para o filme nunca produzido "O Painho" |
Há uma cena na biografia cinematográfica de John Gotti, brilhantemente interpretado por Armand Assante, que abrevia esse colóquio[iv]. Após uma das suas triunfantes vitórias contra o governo, Gotti corre vibrando, da porta do tribunal em direção ao automóvel. É escoltado pelos seus próximos e fervorosamente celebrado pelo público nas ruas, que, em delírio, o aclama como um herói. No auge da sua glorificação, Gotti escuta o povo exaltado, vê cartazes e, com satisfação, pergunta ao seu consigliere: “você sabe por que o povo dessa cidade me ama? Pois eu acabo de derrotar o sistema que bate nessas pessoas todos os dias”.
Já no Brasil, o povo prefere defender um sistema político que humilha seus cidadãos todos os dias. O que aconteceu com a boa malandragem, hein Seu Zé Pelintra?
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| A versão Zé Pelintra para o Dr. Elegante |
PARA CITAR:
https://ronaldconcer.blogspot.com/2026/07/meus-herois-sempre-foram-os-gangsters.html
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REFERÊNCIAS



