Meus heróis sempre foram os gangsters: a magia da Cosa Nostra

Existe uma certa mítica em torno da máfia que faz parte do imaginário masculino. Diz-se que essa arquetipia tem início pelo inexplicável ato de assistir, incansavelmente, aos mesmos filmes, a ponto de ser capaz de reproduzir fidedignamente passagens de memória, e, algumas vezes, trechos completos; pela constante menção às personagens, no contexto cotidiano, como se se referisse a amigos próximos. Caracteriza-se também pela predileção pelo bom trajar, uma vez que “um don não usa bermudas”¹. Manifesta-se pela devoção à boa mesa; consolida-se como sintoma mais latente no entusiasmo secreto logo ao ouvir as primeiras notas de um trompete - valsa composta por Nino Rota - e igualmente no fascínio desmedido por cantores ítalo-americanos; e, finalmente, é selada ao optar por torcer pelos vilões em qualquer filme.

Ronald Concer | Meus heróis sempre foram os gângsters
Meus heróis sempre foram os gangsters | The Goodfellas
A afeição aos vilões não é necessariamente uma inversão de valores ou desvio de caráter. O fenômeno decorre da indústria cinematográfica norte-americana, que transformou os ditos “fora da lei” em figuras virtuosas. A abertura da narrativa de Goodfellas abrevia tal sedução: “Até onde eu me lembro, eu sempre quis ser um gangster. Para mim, ser um gangster era melhor do que ser o presidente dos Estados Unidos.” O aficionado pela representação, em seus delírios privados, talvez se veja como o mandachuva de um cassino em Las Vegas com uma mulher em seus braços tão excitante quanto Sharon Stone². Observa-se também a constante inspiração em Al Pacino, Armand Assante, James Gandolfini, Robert De Niro, ele não raro imagina que, algum dia, terá a voz tão grave quanto a de Marlon Brando: todas versões romantizadas do gangster, remodeladas por diretores brilhantes e atores excepcionais, baseadas em algumas histórias reais, e outras, meramente ficcionais.

Há, ao menos, dois padrões nítidos do modelo do gangster, embora absolutamente inverídicos para detalhar a magia aqui aclamada. O primeiro está associado ao valentão, o sujeito que ninguém encara, seja pelo porte físico ou por ser bom de briga. O segundo remete ao trapaceiro, aquele que se beneficia à custa da perda alheia. Ainda que deem a impressão de serem autênticas, trata-se de concepções claramente superficiais.

A ideia inicial do homem temível é uma idealização quase infantil daquele que tenta disfarçar sua fraqueza. Insinua, até vagamente, o clássico modelo cavalheiresco que se mostra forte e projeta a imagem do poder para prover segurança: quem sabe, frente às mulheres, o que é falho, pois só revela uma conduta de completa insegurança, tanto física quanto psíquica. Tão primitiva quanto a primeira, a expressão do trapaceiro está definitivamente distante do ideal romântico do gangster; as características do trapaceiro, particularmente, se confundem com as do executivo corporativo: o funcionário que se promove pelo trabalho dos outros, puxa o tapete dos seus colegas para ascender nas organizações.

Na realidade, o retrato mais legítimo do gangster está relacionado ao homem afável. Recordemos Robert De Niro em Goodfellas, interpretando Jimmy “The Gent”, ao distribuir prodigamente dinheiro tanto aos seus próximos como aos envolvidos em suas operações, mesmo que fossem os próprios alvos! Trata-se do inequívoco homem cortês: traz consigo boas maneiras, sorri com facilidade e fundamentalmente, respeita tudo e todos. Sua simpatia se completa na sua vaidade: terno alinhado, uma boa gravata, barba cuidadosamente feita e o cabelo impecável (gel demais). Mas a elegância desse gangster não é definida pelo hankie de seda ou os sapatos caprichosamente lustrados. O genuíno uomo di rispetto³ é um indivíduo discreto. Ele não escuta os disparos no meio da noite tampouco se incomoda com um corpo imóvel estendido à beira da rua. Suas opiniões permanecem reservadas e ele não interfere na vida dos outros. Esse espécime abre a boca só para comer: dependendo do patamar na hierarquia, o faz com maestria.

Os bons modos são acompanhados de uma personalidade peculiar. Quando insultado, esse homem gentil não se abala. Ele a encara somente como uma etapa prévia. Asseguramos que a ofensa será retribuída em proporções bastante superiores. Não se reduz à vendeta particular. A retaliação serve como doutrinação: nunca será tolerável a falta de decoro ou afronta contra quem prima pela conduta irrepreensível.

Apesar dessa ferocidade, a demonstração mais contundente de força desse gangster não envolve atos violentos. A arma de máxima letalidade está na sua palavra. O perigo não está em proferir ameaças, injúrias ou provocações, mas por uma razão única: ser verdadeira. A palavra do uomo di rispetto não requer garantias escritas ou testemunhas para ser confirmada.

O ritual se inicia com um encontro que flerta com a informalidade. Ele chega sereno, de maneira privada, portando um sorriso fácil absolutamente cativante. Muito caloroso, aproxima-se e envolve a contraparte. Em momento algum ele interrompe o contato visual - olho no olho. Toma excessiva proximidade, quase a ponto de invadir uma intimidade não autorizada. E com voz macia, porém firme, ele declara seus termos, de forma direta a, digamos, “parte cortejada”. As condições do contrato são simples: cumprir ou cumprir. Não requer nenhuma documentação comprobatória. A palavra basta - dita uma única vez. Não há possibilidade de renegociação.

Tony Montana e o Dr. Elegante
Com Tony Montana (ver notas finais)
Alguém dirá que se trata de tática de intimidação. E se for, que seja! Se o preço por dizer a verdade é ser rotulado como criminoso, que sejamos todos gangsters: homens de honra que carregam como principal atributo o cumprimento da palavra, doa a quem doer. O gangster não está habituado ao modelo em voga daquele que confirma a presença, mas, um dia antes, comunica que não comparecerá com uma desculpa esfarrapada ou sem motivo aparente. Não recorre a evasivas vulgares como “ah, vou dar ‘uma olhada’”, ou “vamos ‘dar uma passada’ aí” sem se dignar a corresponder à confiança de quem espera respostas ou aguarda aquilo que foi previamente combinado. Ele é um transgressor do comportamento social vigente, no qual é frequente o afastamento de qualquer responsabilidade ou compromisso perante o outro, especialmente com as pessoas que lhe são próximas. Tony Montana diria que só tinha duas coisas na sua vida e não abriria mão delas por nada: sua palavra e seus cojones. Tenho dúvidas se são precisos gran cojones para puxar o gatilho; no entanto, não tenho dúvida de que eles são imprescindíveis para honrar a palavra.

Toda essa impetuosidade não acontece em benefício particular. A lealdade é a sua norma sagrada. Um aspecto praticamente religioso é a devoção incondicional à Omertà, a lei do silêncio que estipula o “jamais trairá seus amigos”. Logo, o mínimo desacato que respingue naqueles que o cercam torna-se uma questão pessoal. Tal ação transforma o homem respeitável num verdadeiro uomo d’onore⁵, movido pelo compromisso de proteger seus próximos. É pouco provável que o gangster seja versado em Social Network Analysis - provavelmente nada conheça sobre vértices ou arcos - mas sabe tomar decisões preservando a qualidade das relações. Assim, define o caráter e forja a reputação. Numa época notória pelo individualismo ou relações de conveniência, a fonte de poder reside na honra.

A coesão entre seus membros é o maior trunfo da famiglia, perfeitamente ilustrada por The Sopranos. A famiglia gerida por Tony Soprano era referida por seus rivais como uma “equipe glorificada”, se bem que a designação soava pejorativa no contexto da série. Pense em Don Vito, que jamais traiu seus próximos. Tampouco o Tony - nenhum dos dois - e são repetidamente reverenciados por nós. Uma estirpe muito diferente dos Sammys ou Henrys, ratos que foram fellas enquanto lhes convinha: um ato que nunca caberia a Don Michael.

Família Soprano e o Dr. Elegante
The Sopranos
Para além de uma imagem sublimada e derivada do universo cinematográfico, destaca-se a frase de um verdadeiro uomo d’onore, proferida por Don Joseph Bonanno, um dos consagrados chefes da Cosa Nostra que serviu como inspiração para o expoente máximo da Máfia em The Godfather: “Amizade, conexões, laços de família, confiança, lealdade, obediência: era o que nos mantinha unidos”⁸.

Essa exaltação ao gangster habita o cotidiano de todos, embora pareça ameaçadora ou delirante. Seja honesto. Quantas vezes você quis liberar seus impulsos e, com as próprias mãos, espancar o patife que o deixou esperando numa fila ou atendimento que não andou por pura incompetência de um operador mal treinado ou preguiçoso? E que tal a frustração contra plataformas online sem funções efetivas de reclamação? Prescindindo da violência física, supondo que você seja um pacifista e sua indignação não carregue tal elemento, será que nunca desejou recorrer a uma instância superior… que tal, um padrino? Isto é: quem resolva a situação e lhe poupe o esforço de massacrar o miserável que ousar arruinar o seu dia?

Por fim, resta escolher entre a idolatria ao gangster - aquele que busca a confiança e oferece a sua como compensação - ou a companhia do que veste a máscara social. Nosso herói olhará nos olhos, intenso e quase um assédio, contrário ao hipócrita que o cumprimentará por mero protocolo. Não se espante com o pacote de remarcações da segunda escolha: este virá acompanhado da indisponibilidade e modalidades criativas de se esconder por trás de terceiros. A explicação é que o dissimulado é tão fraco que não consegue ser leal consigo mesmo.

É evidente que a nossa pauta evoca a abstração dos nossos instintos mais secretos. Aprisionados a uma fantasia, fatalmente seremos vítimas desse magnetismo: o apego incondicional aos nossos próprios anseios. Esse é o amor infinito pela liberdade: ser livre para pensar e dizer o que desejar. Abandonar a obrigação de estar com pessoas desprezíveis ou frequentar ambientes desagradáveis. Isso não cabe ao nosso gangster: ele simplesmente não comparece e não precisa se justificar. Diante de uma sociedade repleta de fingimentos e regida por convenções artificiais que são, em grande parte, prescritas por terceiros - dizem aonde ir, com quem estar e sugerem o que parece ser adequado -, o gangster não se importa com isso. Ele é livre para ser o que quiser.

A soma desses fatores torna nosso herói extremamente sedutor e celebrado por muitos, à exceção dos reféns das tais convenções. Aliás, é justamente esse amor que o torna temido: até aquele que é dominado pelas expectativas sociais almejaria ser livre tal como o tal gangster. Sob esse aspecto, recordemos a peça de Chazz Palminteri, A Bronx Tale⁹, quando um jovem pergunta ao gangster se é melhor ser amado ou temido. A resposta é imediata: “Temido, porque o medo dura mais que o amor”. E que tal ser temido por outros motivos - não por ser impiedoso ou atrevido - mas pela autenticidade, por estar à frente e, sobretudo, pela paixão pela verdade? Num mundo inautêntico, o gangster, peremptoriamente, manterá o “sempre digo a verdade, mesmo quando minto”¹⁰. 

Em especial, quando ama alguém, ele ama para valer.

Essa é a sua magia. É o que o torna temido. Temido por ser amado por todos.

Saluto!

The DocFather
PARA CITAR:

CONCER, R. Meus heróis sempre foram os gangsters: a magia da Cosa Nostra. Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2026. Disponível em: 
https://ronaldconcer.blogspot.com/2026/06/meus-herois-sempre-foram-os-gangster.html

IMAGENS:
1. The Goodfellas (Os Bons Companheiros): Dr. Elegante tomou o lugar de Henry Hill, pois aqui ninguém é "rato".
2. Cena de Scarface: Tony Montana com um sócio de confiança maior do que a do "original".
3. O novo membro dos Sopranos à direita.
4. A versão para The Godfather II.

NOTAS:

1. Fala de Carmine Lupertazzi no episódio "For All Debts Public and Private", de The Sopranos. Há um curioso relato sobre a frase, o qual a teria tornado icônica: conta-se que James Gandolfini, durante a madrugada, recebeu uma ligação anônima. Uma voz teria dito: “...gostamos do que você está fazendo, continue, mas saiba: um don não usa bermudas”. A ligação terminou. Veja: https://www.youtube.com/watch?v=E2CyXM9BX6g e divirta-se.
2. O inesquecível filme Casino (1995), protagonizado por Robert De Niro, Sharon Stone, Joe Pesci e muitas outras estrelas.
3. Homem de respeito: uma das denominações para um membro legítimo da Cosa Nostra.
4. O diálogo definitivo entre as personagens de Al Pacino e Paul Shenar em Scarface (1983).
5. Homem de honra: outra designação utilizada na Cosa Nostra. Neste caso, trata-se de um patamar superior.
6. Sugiro ao estimado leitor que melhore o seu repertório cinematográfico caso não reconheça tais nomes.
7. Referência a Sammy Gravano e Henry Hill, infames traidores da Cosa Nostra.
8. Da autobiografia de Joe Bonanno "A Man of Honour", publicada em 1983. Marlon Brando utilizou aspectos de mais de um chefe da Cosa Nostra para dar vida a Don Vito Corleone. Bonanno foi um dos chefes mais longevos, mas a icônica voz rouca foi inspirada em Frank Costello.
9. A Bronx Tale é um monólogo escrito e estrelado por Calogero “Chazz” Palminteri. O espetáculo teve início em 1989. O texto foi adaptado para o cinema em 1993 com Palminteri e Robert De Niro.
10. Frase de Tony Montana em Scarface (1983).

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