Toda vergonha deixa um K: o rompimento de laços sociais
Em certos círculos verifica-se que o rompimento de laços sociais decorre principalmente por dois motivos: a tentativa de distanciamento de fatos do passado e o receio de que tais fatos venham à tona. É uma maneira um pouco simples mas assim mesmo expressiva de identificar as preocupações daqueles que se ocultam.
As redes clandestinas dedicam-se ao mapeamento de relações sensíveis que possam conectar indivíduos a grupos, revelar situações embaraçosas e até condutas criminosas. Se, para o pioneiro da ciência forense, Edmond Locard, “todo contato deixa um rastro”, é dever do investigador desvelar elos rompidos; pois laços que outrora foram benéficos, e hoje, são demasiadamente repudiados pela ocasião de reavivar memórias antanhas.
Na Ciência das Redes (Social Network Analysis), há um conceito muito simples para examinar o grau de interação de pessoas em um grupo. Denominado k-cores, é uma subrede máxima em que cada vértice possui ao menos um grau K. O significado do k-core revela o número mínimo de relações que cada indivíduo mantém com os demais no mesmo núcleo da rede. Ao definir um conjunto, o k-core é um critério estrutural: podemos apontar para um k-core e dizer que, em determinado agrupamento, todos os vértices têm, pelo menos, aquele K grau.
Segue uma ilustração: numa subrede formada por 15 pessoas, observe que ao menos um indivíduo tem contato com os demais. Logo, dizemos que se trata de um 1-core (grafo da esquerda).
No próximo grafo (centro), observamos 7 vértices sendo que cada um está conectado, ao menos, a 2 outos vértices. Nenhum possui menos de duas conexões. Portanto, 2-core é o grau mínimo. Adiante, no grafo composto por 4 vértices, temos um grafo com máxima densidade. Cada um possui arestas com os demais 3 vértices, finalmente, 3-core.
Esse conceito é uma propriedade coletiva que define o agrupamento. Ao recordar das redes clandestinas (dark networks), o K-core é útil como tática para reconhecimento de associações na subrede. Para o membro que busque a ocultação, a melhor opção para livrar-se de toda recordação penosa do passado é mediante o rompimento das arestas.
A aversão ao reconhecimento por antigas afiliações a grupos subversivos assombra todo aquele que carrega suas vergonhas. Por meio das testemunhas ligadas ao grau mínimo no relacionamento, ampliam-se os escândalos. As situações de maior destaque acontecem quando estão envolvidas personalidades públicas, especialmente sob chancela institucional.
Entre os incidentes mais recentes, está a ex-primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, ocorrido em 2022, enquanto exercia o mandato. A publicação de um vídeo contendo a primeira-ministra em uma festa, num ambiente privado e na companhia de amigos, expôs Marin ao ridículo enquanto dançava em frente à câmera. A gravação revela um ambiente frenético, ao mostrar pessoas dançando no chão visivelmente alteradas. Cogitou-se, inclusive, que algum dos convidados ao fundo da sala consumia drogas, o que levantou a hipótese de a própria Sanna Marin ser usuária. O vazamento repercutiu internacionalmente, o que a obrigou a submeter-se a um teste antidrogas para buscar registrar sua sobriedade. De nada adiantaram as discussões desencadeadas acerca do direito à privacidade. O dano moral tornou-se permanente: o discurso enfadonho ou lágrimas forçadamente vertidas pouco a ajudaram a resignar-se perante a opinião pública.
Outro caso notório deu-se com Boris Johnson, o “Mr. Brexit”. O ex-premiê atingiu o ápice da fanfarrice ao ser flagrado em fotos e vídeos participando de diversas festas durante o período pandêmico da COVID-19, em contraste com as restrições e regras de distanciamento impostas pelo governo britânico. Os registros vieram a público e causaram o escândalo batizado como PartyGate. Ao falhar em camuflar tais peripécias, que se somavam a outras estripulias da sua vida pessoal, esse tal Bóris acabou obrigado a renunciar ao cargo em 2022.
Houve, contudo, outro Bóris, de outra estirpe. Conhecido pelo “genocídio econômico” e visto por alguns dos seus correligionários como um traidor, Bóris Yeltsin não tinha preocupações em disfarçar sua excentricidade, apesar de isso também lhe ter custado seu posto de líder nacional. Frequentemente visto bêbado, foram inúmeros os episódios embaraçosos: desde gafes fruto de sua personalidade até autênticas cenas lamentáveis (e divertidas, para nós) sob efeito de álcool¹. Podemos especular que a mais famosa teve lugar na capital norte-americana, ainda enquanto presidente da Rússia. Numa visita oficial, Bóris foi encontrado bêbado, no meio da rua, usando apenas cuecas ao tentar chamar um táxi porque queria comer uma pizza².
Não é necessário ser um líder nacional para estar sujeito a alguma polêmica deste teor. Pessoas comuns, quem sabe, nem tão comuns, se escondem a fim de proteger seus interesses. A motivação varia desde aspectos econômicos, contratos discutíveis sob o ponto de vista de associações pessoais, até circunstâncias familiares. O desespero em manter-se oculto é tão exagerado que apenas um contato já causa temor àquele que precisa dissimular sua compostura encenada e sustentada frente à sua plateia particular.
Não é necessário ser um líder nacional para estar sujeito a alguma polêmica deste teor. Pessoas comuns, quem sabe, nem tão comuns, se escondem a fim de proteger seus interesses. A motivação varia desde aspectos econômicos, contratos discutíveis sob o ponto de vista de associações pessoais, até circunstâncias familiares. O desespero em manter-se oculto é tão exagerado que apenas um contato já causa temor àquele que precisa dissimular sua compostura encenada e sustentada frente à sua plateia particular.
No caso das autoridades políticas, fotos ou vídeos com amigos não evitam o constrangimento. A confirmação surge perante o testemunho daqueles vínculos, tal como previsto pelo K-cores. Qualquer tentativa de afastamento, obviamente temporária, já nascerá fracassada diante do fato punitivo. Entretanto, engana-se quem pensa que fatos passados seriam o único precursor da altercação: a mera associação com determinadas pessoas é suficiente para acarretar danos reputacionais. A evidência mais nítida é exemplificada pelos Arquivos Epstein: a proximidade com Jeffrey Epstein já assombrou figuras que participaram do seu círculo social, mesmo que não haja fotos ou vídeos comprovando o envolvimento nos atos ilícitos.
Na perspectiva de Locard, todo contato cria uma marca, seja com objetos ou locais. E por que não com pessoas? Desta forma, na ótica da Ciência das Redes, podemos cunhar que todo contato cria uma relação. O criminologista francês, ao discorrer sobre a validade de provas e a urgência nas investigações, afirmava que "o tempo que passa é a verdade que foge". Não obstante o apontamento fosse válido na Belle Époque, nos dias atuais, ao menos aos que se dedicam ao estudo da Social Network Analysis, é uma frase falida.
E quanto a você, quais os vínculos que pretende cortar? Já parou para saber qual o seu grau? Verifique o K-core para “tentar” dormir tranquilo.
PARA CITAR:
REFERÊNCIA
1. Imploro aos meus estimados leitores, principalmente àqueles que compartilham o gosto pelo escárnio, ou, como dizem nossos amigos germânicos, Schadenfreude, que assistam ao vídeo no qual encontramos o camarada russo demonstrando suas “aptidões artísticas”.
Ver: https://www.youtube.com/watch?v=v9YnDirqwT4
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