Dark networks: mapeamento das redes clandestinas

O que são dark Networks?

Dark networks consiste em um tópico da Ciência das Redes (Social Network Analysis – SNA) para o mapeamento de relações ocultas. A designação dark networks, livremente traduzida como redes clandestinas, trata das estruturas de relacionamento secretas e ilegais. Constantemente associadas às atividades ilícitas, como grupos terroristas, cartéis ou gangues, as dark networks também se referem a grupos clandestinos benignos que estejam à margem da autoridade institucional.

Tal como qualquer tema em análise de redes sociais, o objetivo é oferecer métodos para a elaboração da estrutura social: modelar a interação entre pessoas, contratos ou objetos. A estrutura dedica-se a esclarecer o comportamento dos atores e serve como instrumento investigativo para a exploração de fenômenos e o tratamento de problemas. Na temática das redes clandestinas, a preocupação predominante recai sobre a desarticulação de ambientes ocultos, cujos grupos se beneficiam às custas da sociedade civil, seja por meio de práticas criminosas típicas, seja por falta de transparência nas transações, seja por favorecimentos indevidos ou qualquer ato que viole a ordem jurídica.

O primeiro registro dessa abordagem remete ao ensaio de Georg Simmel, “The Sociology of Secrecy and of Secret Societies”, publicado em 1906. Simmel explorou a estrutura das sociedades secretas, estudo ampliado na década de 1980 por Bonnie Erickson¹. O interesse no tema cresceu nos anos 90, a partir da identificação de vulnerabilidades em diferentes tipos de organizações criminosas. Adiante, em 1993, outros autores aplicaram as metodologias da Ciência das Redes para examinar redes de conspiração industrial². A popularidade do assunto aumentou a partir dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que intensificou o interesse acadêmico. Ainda que os modelos mais comuns tendam a compor as pautas de criminologia, as redes benignas, por serem ocultas, também são classificadas como dark networks. Exemplo dessa modalidade é a Żegota³: um grupo católico que amparou judeus na Polônia durante a ocupação nazista. Embora atuasse em prol de ajuda humanitária, é considerada uma rede clandestina devido ao confronto com o domínio alemão na década de 40.

Uma das principais preocupações na gestão de grupos clandestinos está na proteção e ocultação dos seus membros. No formato consagrado, tal como reportado por Georg Simmel, aponta para estruturas e práticas organizacionais apoiadas na hierarquia. Tais estruturas tendem a dificultar o acesso à liderança, nos moldes convencionais da Máfia: lideranças jamais seriam identificadas ou acessadas – o que não difere da estrutura empresarial do século XXI. Outros trabalhos revelaram que há alternativas além da hierarquização. Quando o objetivo é maximizar a ocultação, redes clandestinas optam por estruturas descentralizadas com o intuito de privilegiar a segurança, mesmo que isso diminua a eficiência das operações. Essa constatação aparece nas conspirações por fixação de preços examinado no setor de equipamentos elétricos pesados nos Estados Unidos. A modelagem ocorreu por meio das redes de comunicação: foi revelado que as dinâmicas da descentralização priorizaram a segurança dos envolvidos.

Os esforços em desmantelar as dark networks tornam-se ainda mais árduos ao passo que essas redes não apresentam estruturas estáticas. A descentralização, além de assegurar a ocultação, permite melhorias na adaptabilidade diante de ambientes de mudança acelerada e frente a desafios incomuns para resolução de problemas. O grau de dificuldade para o mapeamento cresce a partir da competência de estruturação destes modelos, baseado na capacidade imediata em responder às pressões ambientais. A Al Qaeda ilustra essa condição: grupo originalmente com nível de comando integrado verticalmente, optou por uma estrutura decentralizada após a resposta direta dos Estados Unidos contra o Afeganistão ocorrida no final de 2001⁴.

Em função da configuração variável e natureza mutável, capturar dados confiáveis das redes clandestinas é uma tarefa delicada. O primeiro aspecto versa sobre a incompletude dos dados – especialmente devido à ocultação das operações. Entretanto, as fontes abertas são extremamente proveitosas para qualquer investigação acerca dessas redes. A abundância de informações acessíveis acarreta outro desafio aos analistas: saber como processar as informações disponíveis. Segundo o ex-diretor da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, tenente-general S. V. Wilson, 90% das realizações em inteligência são oriundas de fontes abertas, enquanto somente 10% provêm de trabalho clandestino: “o verdadeiro herói da inteligência é Sherlock Holmes, e não James Bond”!⁵

A premissa central no estudo da Ciência das Redes, igualmente nas redes clandestinas, é a de que nenhuma rede atua de forma isolada. Esse fator frequentemente não é considerado por diversos profissionais. A exemplo, o relacionamento entre a Al Qaeda com diversos países falidos é explicado pela necessidade de converter moeda em diamantes. Uma vez que os EUA impuseram severas restrições a bancos, especialmente os da Europa Ocidental, tais países ofereceram espaço seguro para operações do grupo terrorista, em troca de dinheiro e armas⁶. Nesse contexto, o processo investigatório acontece pela convergência no mapeamento de fluxos e associações adjacentes, em atuação conjunta entre o responsável pela modelagem com o gestor organizacional. Ademais, a incumbência do analista está na especificação dos limites para tal averiguação.

Em suma, a desarticulação das redes clandestinas em nada se distingue das metodologias tradicionais da Ciência das Redes. A análise de redes sociais é uma abordagem exploratória, que se contrasta com análises numéricas comuns. O intuito da Ciência das Redes é propor o tratamento investigatório baseado nas relações mapeadas, e não encontrar soluções pontuais, típicas da modelagem matemática convencional. Deve-se ressaltar também o avanço dos softwares para a análise de redes sociais: ferramentas acessórias para facilitar o cálculo e a visualização.

A modelagem baseada na Ciência das Redes não segue o caminho de automação a partir de algoritmos preestabelecidos com respostas prontas esperadas. Trata-se de um esforço integrado, marcado por extrema cautela para o desenho das relações entre os agentes. Comparado às soluções pontuais dos “pacotes de solução”, o uso indiscriminado de medidas específicas leva ao fracasso operações perigosas no processo investigativo. O foco na identificação e captura de alvos de prestígio em redes ocultas costuma trazer resultados de curto prazo ao gestor, mas, em contrapartida, eleva de modo significativo o nível de descentralização dessas redes, o que torna a completa desagregação ainda mais onerosa.

Em geral, o mapeamento das redes clandestinas, inclusive em contextos organizacionais, demanda tempo e custos consideráveis. O potencial estratégico dos modelos oferece transparência a qualquer campo de difícil acesso. O uso da análise de redes em operações críticas, tais como a prevenção de bombas à beira da estrada (IEDs)⁷, a redução da influência geográfica do Talibã⁸ e a captura de Saddam Hussein são alguns dos casos mais notórios já registrados. Aplicações sugeridas em contextos organizacionais englobam o mapeamento de fraudes, apoio a programas de auditoria, compliance e até a ampla gama de opções em criminologia.

O que são as dark networks?

REFERÊNCIAS

1. Erickson, B. H. (1981) Secret Societies and Social Structure. Social Forces 60(1):188–210.

2. Baker, W. E.. Faulkner, R. (1993) The Social-Organization of Conspiracy: Illegal Networks in the Heavy Electrical-Equipment Industry. American Sociological Review 58(6):837–860.

3. Tomaszewski, I., Werbowski, T. (1999) Zegota: the Council for Aid to Jews in Occupied Poland, 1942-45 (Rev. ed.). Price-Patterson.

4. Sageman, M. (2008) Leaderless Jihad: Terror Networks in the Twenty-First Century. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.

5. Flynn, M. T., Pottinger, M., Batchelor, P. D. (2010) Fixing intel: A blueprint for making intelligence relevant in Afghanistan. Center for a New American Security.

6. Raab, J., Milward, H. B. (2003) Dark Networks as Problems. Journal of Public Administration Research and Theory: J-PART, 13(4), 413–439.

7. Gjelten, T. (2010) U.S. ‘Connects the Dots’ to Catch Roadside Bombers. Morning Edition. Ver: http://www.npr.org/2010/12/03/131755378/u-s-connects-the-dots-to-catch-roadside-bombers

8. Operação “Village Stability Operations (VSO)”

9. Wilson, C. (2010) Searching for Saddam: A Five-Part Series on How the U.S. Military Used Social Networking to Capture the Iraqi Dictator. Slate. Ver: https://slate.com/news-and-politics/2010/02/searching-for-saddam-a-five-part-series-on-how-social-networking-led-to-the-capture-the-iraqi-dictator.html

PARA CITAR:

CONCER, R. Dark networks: mapeamento das redes clandestinas. Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2026. Disponível em: https://ronaldconcer.blogspot.com/2026/04/dark-networks-mapeamento-das-redes.html

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