A arte do reencontro: contato, silêncio e a fuga
Das conexões pessoais aos problemas de acesso organizacional

Essa história vale a pena ser contada. A Pesquisa Operacional nos ensina a buscar boas decisões, todavia, números ou algoritmos não descrevem os motivos das decisões inexplicáveis dos adeptos do exílio social.
Durante meus anos de formação, tive o privilégio de frequentar a residência dos ilustres pianistas José Eduardo Martins e Regina Coeli Normanha Martins, período em que recebi a orientação musical e intelectual que julgo constituir um dos momentos culminantes da minha trajetória. No ano passado, numa passagem naquela rua por mero acaso, passei pela frente da casa dos Martins. Qual não foi o meu espanto em encontrar a casa recém-demolida.
Muitos anos afastado das atividades artísticas, revivi sentimentos saudosos e genuína urgência em saber a localização deles. A distância com meus professores decorreu da falta de contato. O telefone fixo fora extinto e eu não tinha acesso a qualquer número de telefone celular: naquela época, ainda algo raro e muito reservado. Ao longo dos anos, fiz diversas buscas na internet, por todos os meios imagináveis, contudo, nenhum resultado para o contato.
Perplexo diante dos escombros, imediatamente lembrei do blog do Prof. José Eduardo. Abri o site e deparei-me com a postagem mais recente “Tempo de Mudança”¹, em que são narradas as circunstâncias da reinstalação residencial do casal. Entretanto, não encontrei opções para deixar comentários, tampouco links ou e-mail. Como reencontrá-los?
Comecei a fazer associações, expediente automático de um autor da ciência das redes. Não localizei os vértices ou arcos. Arrisquei uma busca combinando nomes e outras particularidades. Surpreendentemente, decerto com alguma sorte de um algoritmo caprichoso, encontrei uma fotografia com Regina junto a um médico, um possível aluno. A capacidade de memória de um pianista é espantosa: jamais esquece detalhe algum. Uma lembrança longínqua se manifestou, datava de mais de vinte anos. Depois de uma das minhas aulas, Regina dizia que naquela noite teria um último aluno: um médico muito dedicado ao piano, apesar da sua agenda profissional. Pronto, deduzi tratar-se do mesmo. Entrei em contato e finalmente, retomei o vínculo com Regina e José Eduardo: um reencontro inesquecível.
É assombroso constatar que, no meio da era digital, muitas pessoas simplesmente esquecem de disponibilizar seus contatos. Às vezes acontece por um lapso, uma mudança repentina, em outras, por e-mails são automaticamente encaminhados para lixo eletrônico. Estar conectado é sempre benéfico e traz momentos surpreendentes: tal como diria o poeta, “a vida é a arte do encontro”². No entanto, é curioso constatar aqueles indivíduos que não atendem o telefone: “não atendo número que não conheço”. E se for um prêmio? Lembra daquele cadastro que você preencheu para o sorteio? Talvez você tenha ganho... mas nunca foi encontrado! Há quem perca negócios ou amizades por tal descuido, o mero detalhe de não atualizar ou divulgar seus contatos. Particularmente, autores adoram receber e-mails (alô leitor!).
Por outro lado, há aqueles que não desejam ser encontrados. As barreiras são elaboradas de maneira intencional, algumas baseadas em querelas ridículas até aspectos sombrios. A instância mínima se inicia em pequenas divergências particulares ou rompimentos amorosos: acessos tipicamente desfeitos pela função “bloqueio” nos aplicativos. Em outro patamar, a gravidade nas relações remete a situações em que há ausência de fatos claros, i.e., problemas complexos.
Problemas dessa natureza são típicos no meio empresarial. Na primeira instância, a falta de contato decorre essencialmente da incompetência. Não são poucas as organizações que omitem contato telefônico ou e-mail em seus websites. Na verdade, quando há um website: hoje a maioria deles foram substituídas pelo Instagram, o que obriga a qualquer cidadão a manter-se ativo nesse serviço, independentemente da sua vontade.
Em nível superior, sugere-se que a falta de acesso decorra de motivações intencionais. Diversas organizações não desejam o contato externo. Principalmente quando o contato é direcionado à diretoria executiva. Tal parte, por sua vez, constantemente classifica contatos externos como interferência nas atividades e até como ameaça, sem cogitar os benefícios de uma possível nova interlocução. Anos atrás, quando iniciei a aplicação do Método Zeleny em organizações, lembro de ter obtido com dificuldade o contato com um certo CEO de um grupo hospitalar beneficente. Na primeira reunião, imediatamente, o indivíduo me perguntou como eu consegui o contato. Foi mais que evidente as intenções daquele medíocre médico no cargo de gestão: condicionava a aplicação experimental do método à oportunidade de ter seu retrato impresso na revista Método Zeleny. Ao passo que percebeu que o mapeamento em redes poderia expor as fragilidades da sua gestão, cancelou a aplicação.
Na mesma tonalidade, são vastas as razões, algumas sórdidas, que justificam o isolamento. Uma parcela afirma querer resguardar-se e estipula zelo excessivo pela sua privacidade, sob a cômica e petulante crença de poder estabelecer contatos com terceiros segundo sua própria conveniência. Dessa forma, afugenta qualquer possibilidade de intervenção estrangeira em seus domínios.
Aos indivíduos dessa modalidade que, em certa medida, carregam uma conduta moral duvidosa, porventura, alcançarão ainda o almejado anonimato. Em algumas instituições, executivos não podem ser facilmente encontrados, pois, por exemplo, determinados “hotéis” de estadia compulsória, os contatos telefônicos são proibidos e o horário de visita é bastante restrito.
A decisão de oferecer contato é bastante simples e carrega consigo o componente moral. Aos adeptos, são inúmeras as vantagens testemunhadas nos reencontros e conexões da vida. Do contrário, a falta de acesso sugere a tentativa de afastar eventos que se deseja esconder, quem sabe, nocivos à sua reputação.
Por sorte, esse pianista não esquece de nada.
NOTA
As imagens foram geradas por sistemas de inteligência artificial a partir de comandos textuais e destinam-se exclusivamente a fins artísticos. A segunda imagem é uma singela homenagem que retrata o reencontro com meus professores: Regina Coeli Normanha Martins e José Eduardo Martins.
REFERÊNCIAS
1. Texto disponível em http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2025/02/22/tempo-de-mudanca/
2. Vinícius de Moraes, verso de "O Samba da Benção", 1967.
PARA CITAR:
CONCER, R. A arte do reencontro: contato, silêncio e a fuga. Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2026. Disponível em:
