O caixeiro viajante e o problema perverso: a questão moral nos modelos de decisão
Ao se deparar com a nefasta janela com a mensagem “o Solver não encontrou solução viável”, o usuário do Excel se espanta. Qualquer profissional minimamente familiarizado com programação linear, numa reação inicial, supõe que haja erros em fórmulas, talvez no preenchimento das restrições. A segunda explicação típica alega insuficiência de recursos perante o modelo proposto. Ambas são respostas fáceis. Tais orientações são parte do roteiro seguido pelos instrutores universitários nos cursos de modelagem de apoio a tomada de decisão, ao adestrarem alunos a elaborar planilhas e apertar botões em um sistema de passo a passo. Estes mesmos apontam para que, se não há recursos, o problema não tem resolução, embora, é muito provável que nem o instrutor saiba a definição de viabilidade. Contudo, em vez de passar horas averiguando cada célula, o instrutor deveria saber que a maioria dos erros atrelados a “viabilidade” reside em fatores inexistentes na planilha.
A tal categoria, nomeia-se “problemas perversos” (wicked problem, no original). O problema perverso se manifesta em uma situação mal-formulada cujas informações são confusas e composta por clientes distintos além de decisores com visões conflitantes¹. A denominação foi cunhada por Horst Rittel, ao expor sistemas que possuem ramificações, cuja totalidade é intrinsecamente confusa. Adotou-se a alcunha “perverso” para declarar a natureza maliciosa desses problemas: frequentemente, as soluções propostas mostraram-se mais nocivas do que os sintomas originais. Falta de recursos não é argumento suficiente para justificar a viabilidade do projeto ou problema. A busca por uma solução reside, em princípio, na tentativa de domar o problema perverso. Quando há situações de conflito, o ponto inicial está no esforço de atenuar o problema, e, de alguma maneira, dirigir-se a algum consenso. Ao passo que as ramificações do tal problema perverso estejam devidamente mapeadas e, de certa forma, controladas, talvez sim, possa ser cogitado o uso de soluções tradicionais da modelagem numérica.
Em contraste, há aquele que sugira a subdivisão de problemas em partes menores com o objetivo de encontrar solução racional e viável no recorte. Tal perfil é o mesmo que insiste na injeção mecânica das soluções numéricas e computacionais, constantemente preocupado em entregar “contribuições”, mas assumidamente transfere a responsabilidade, em especial, da parte do problema que não foi domesticada. Esse modus operandi não é diferente do caixeiro viajante que carrega consigo utensílios padronizados que atendem a necessidades comuns. O caixeiro está mais interessado em apresentar a gama ampla de soluções para problemas pontuais, ao procurar encaixar produtos disponíveis naquilo que não é o ideal.
O fenômeno acontece além da modelagem numérica. O médico que recebe um paciente e, sem demora, receita analgésicos ou pomada para aliviar dores, o faz para amenizar sintomas e não identificar a verdadeira natureza do mal que aflige o enfermo. É idêntico ao cozinheiro que é dependente do uso de pré-misturas e ingredientes industriais, já dosados e combinados para facilitar a produção, sem conhecer a composição, tampouco saber como dar sabor ou entender limitações na dieta de cada comensal. Ademais, há o típico consultor que sugere ações sem qualquer mapeamento dos desdobramentos: “vamos ver até onde vai”, e logo, numa etapa posterior, exigirá novos honorários com base nas consequências incontroláveis que não soube prever.
Já nasce fracassada qualquer tentativa de adotar “soluções analgésicas” com a pretensão de domar um problema perverso. Talvez elas silenciem o rosnado no problema, mas, em algum momento, é certo que ocorrerá o ataque. Apaziguar os sintomas engana facilmente a ingênua vítima. Diante de um cenário de desespero, qualquer indivíduo despreparado será facilmente ludibriado pelo “profissional” limitado, quando não mal-intencionado, e acabará por crer na existência de progressos na situação que enfrenta. Eis, portanto, o fator periclitante da abordagem da resolução de problemas: a questão moral, levantada pelo professor Charles West Churchman, em ensaio publicado em 1967².
A questão moral incide no mecanismo de fazer com que as pessoas acreditem que algo é de um modo quando, na verdade, não é. O problema adquire densidade moral quando são os próprios profissionais que induzem ao engano e sustentam conscientemente a ficção frente a fragilidade das pessoas envolvidas. A razão que fundamenta a premissa é entender que um problema complexo é parte de sistema único e absolutamente indivisível. Tomemos como exemplo os apontamentos do professor Russell Ackoff: em uma de suas palestras, apontou que somos compostos por um sistema chamado “vida”. Neste sistema, nenhuma parte do organismo pode ser decomposta em partes independentes: “o ser humano escreve, a mão não escreve, se você acha que ela pode escrever, corte-a e coloque-a sob uma mesa e veja o que ela pode fazer.”³
Para diversos administradores, tal princípio moral é rotulado como ridículo. Egressos da orientação acadêmica voltada aos automatismos ou baseada na crença que devemos lidar somente com problemas “viáveis”, acreditam que, se não for possível resolver um problema por inteiro, seria necessária tal decomposição em partes menores. A alternativa para atender a moralidade é remeter-se ao princípio da honestidade: comunicar ao cliente que “não conseguimos domar o problema por inteiro, somente o seu rosnado”. Seria essa uma declaração de incompetência operacional ou uma tentativa de se isentar legalmente do problema? Qualquer que seja, ambas são parte da cartilha elementar do vigarista, vestida com o ar cênico e um jeito dissimulado de mostrar colaboração com seus clientes. O vigarista sabe, melhor que todos, que a desonestidade se origina em ambientes de total franqueza.
Os apontamentos levantados pelo professor Churchman suscitam uma inflexão crítica. Será que nós, administradores, adiamos problemas ditos “não-viáveis” pela falta de orientação específica ou carência de aspectos técnicos de gestão? Embora haja diversas hipóteses para essa provocação, o ponto essencial a considerar é: será que você aprendeu o suficiente para lidar com os problemas que precisa resolver?
REFERÊNCIAS
1. Rittel, H., Webber, M. (1973) Dilemmas in a general theory of planning. Policy Sci 4, 155–169.2. Churchman, C. W. (1967). Wicked Problems. Management Science.
3. Ver https://www.youtube.com/watch?v=OqEeIG8aPPk
PARA CITAR:
CONCER, R. O caixeiro viajante e o problema perverso: a questão moral nos modelos de decisão. Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2025. Disponível em: https://ronaldconcer.blogspot.com/2025/12/o-caixeiro-viajante-e-o-problema.html
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