Boiando na Complexidade: a devoção pelas soluções padronizadas

Casa da BoiaÉ impossível obter resultados a partir de um modelo, fórmula, algoritmo, machine learning, IA ou qualquer denominação similar perante cenários mal estruturados. Falta de estruturação significa conflito de ideias, ausência de objetivos claros e níveis de incerteza que geram a consequente perda de controle das operações: conjunturas agravadas pela postura obtusa de empresários e executivos despreparados.

A esse tipo de situação costuma-se nomear por problema complexo. Quando há ausência de ordem, informações são esparsas, contraditórias, recursos ou tempo são limitados para novas averiguações e, mesmo assim, decisões devem ser tomadas. Estas dinâmicas são caracterizadas por elevados níveis de incertezas, já que não há como identificar ou interpretar comportamentos dos executivos de maneira precisa perante circunstâncias adversas. Por consequência, não é possível prever ações individuais ou em equipes – que podem causar desde baixo desempenho, ocorrência de fraudes ou até crimes corporativos. Esse quadro é exemplificado por problemas de rotatividade de pessoas, passivo trabalhista elevado e questões legais insolúveis. Outros são identificados pela incoerência na gestão do caixa, estoques e, inclusive, câmeras de vigilância “viradas” por funcionários: indícios da absoluta falta de competência do empresário ao formar equipes.

A soma desses elementos, notadamente em empresas familiares, compõe o repertório dos problemas intratáveis aos que insistem nas soluções padronizadas, ferramentas simplórias e até a soberba do empresário. Para lidar com esses contextos, é fundamental reconhecer os sintomas e suas interligações, e logo, identificar suas causas e integrá-las a fim de conter as origens diversas dos problemas.

Para explicar tal fenômeno, propõe-se a seguinte ilustração. Imagine, neste instante, que alguém esteja sofrendo de uma aguda crise de dor de cabeça. Como resolver tal problema? Geralmente, há dois caminhos. No primeiro, e mais comum, é buscar imediatamente por um remédio que solucione o quadro. Provavelmente, o enfermo se dirigirá até uma farmácia mais próxima e comprará um analgésico. Após a ingestão, aguardará de 15 a 20 minutos: tempo em que o medicamento começará a fazer efeito. A dor, de fato, aliviará. O efeito do alívio permanece no corpo cerca de 6 horas. No entanto, qual a garantia que, ao final das 6 horas, o enfermo não sofra novamente de dor de cabeça? Além disso, qual a chance de não haver novo episódio deste tipo no dia seguinte? Nenhuma. É bastante provável que, na próxima crise, o sistema se repita: fará o mesmo percurso em busca de uma solução pontual, sem eficiência e tampouco definitiva.

Por outro lado, podemos pensar em buscar por um segundo caminho. E se, em vez de buscar um analgésico, o enfermo buscasse um tratamento? Digamos que, ele consulte um médico. O médico, por sua vez, fará um detalhado diagnóstico: composto por entrevista, verificação de histórico de saúde, avaliação de sinais e talvez alguns exames adicionais. Com isso, o médico poderá avaliar o completo estado de saúde. Após esta longa averiguação, ele poderá propor algumas recomendações, tais como: atividades físicas, mais horas de sono em horários adequados, ingerir menos cafeína e beber mais água. Ao seguir as indicações do tratamento, o indivíduo, por consequência, aumentará o poder de concentração, passará a ser mais saudável, aumentará seu vigor físico e quem sabe aumentará até a expectativa de vida... além de, reduzir considerada e comprovadamente episódios de dor de cabeça!

Esse tratamento nada mais é do que a estruturação de uma situação complexa. Não existem soluções simples ou imediatas: medicamentos só disfarçam sintomas, mas efetivamente não resolvem o caso. O mesmo ocorre ao lidar com a complexidade corporativa. O tratamento é o mapeamento da situação, uma forma de estruturar o problema em vez de buscar uma solução pontual. Esta estrutura é o imperativo para estabelecer o domínio dos fatos: oferece esclarecimento da situação e permitirá aos responsáveis o controle do curso da empresa.

A estruturação proporciona o controle de aspectos subjetivos: verificar as interrelações e dar significado aos sintomas. Em analogia com a saúde, o médico partiu de uma definição rigorosa do problema. “Dor de cabeça” é algo multifuncional. Nem sempre há uma causa específica. Pode existir uma doença não diagnosticada que leve aos episódios de dor de cabeça. Em casos mais graves, pode ser um tumor cerebral: remédios não trarão respostas. Se for enxaqueca, uma dor de cabeça muito específica, a origem geralmente é familiar. O médico solicita uma série de exames (ressonância, tireoide etc.) para que o paciente trate as crises de forma preventiva. No entanto, caso acometido por uma dor de cabeça eventual, caso opte pelo tratamento ao invés da solução genérica, os ganhos irão, além de assegurar a saúde do paciente, gerar diversos benefícios além do problema enfrentado.

Nos casos corporativos, definição rigorosa é o estudo das relações estabelecidas a partir de todas as manifestações entre pessoas ou fatos. Enquanto o médico solicita exames para avaliar o quadro, é dever do CEO mapear as manifestações a fim de obter maior acesso a problemas estratégicos, aqueles que envolvem múltiplos decisores e origens independentes. Soluções simples só mascaram efeitos, mas não identificam causas – o que de fato, não resolve os problemas. Essa dinâmica é idêntica a submeter-se a técnicas tradicionais de problem-solving: em sua totalidade, pressupõem cenários perfeitos com objetivos já identificados – condições muito distantes da realidade empresarial. Comumente iludidos pelas promessas de soluções automatizadas ou modismos gerenciais, executivos são reféns da “intuição”, por vezes, com algum auxílio de softwares programados pela teoria da probabilidade.

Nesse panorama, por fim, é fundamental aludir a um episódio recorrente com qualquer um que trabalhe com os modelos de decisão: o autodiagnóstico. Aqui, o empresário tem a indubitável certeza do que precisa para tomar decisões acerca do caos que ele próprio criou. É idêntico àquele que insiste em tomar um paracetamol quando tem um aneurisma cerebral: “mas uma vez eu tomei e já deu certo!” ou “ah, mas é isso que eu necessito, pois me disseram que é bom!” Iludido por algum vigarista ou aprisionado pela própria oligofrenia, o empresário, já navegando sob condições tempestuosas, naufraga na congênita ignorância, mas, sobretudo, nada rumo às soluções padronizadas.

O leitor atento talvez classifique a descrição acima como o cúmulo do absurdo. No entanto, saiba: trata-se de uma situação verídica. A automedicação é a dependência letal. Talvez o empresário colha o paracetamol em alguma ferramenta obsoleta tal como uma árvore de decisão que esteja boiando no mar da complexidade. Em certos casos, há quem prefira se afogar na complexidade, à deriva no mar da incompetência. 

"Pelo atraso...agradecemos sua visita!”
boiando na casa afundada com o cobre e as árvores de decisão

PARA CITAR:

CONCER, R. Boiando na Complexidade: a devoção pelas soluções padronizadas. Dr. Ronald Concer | Pesquisa Operacional e a Ciência da Redes comentada, 2025. Disponível em: https://ronaldconcer.blogspot.com/2025/11/boiando-na-complexidade-devocao-pelas.html